quarta-feira, 6 de agosto de 2014

GLOBALIZAÇÃO: A DESTRUIÇÃO PELO TURISMO

Por Claude Llena

Um dos oásis mais célebres do mundo, Tozeur teve seu frágil equilíbrio econômico, ecológico e social praticamente rompido, quando o governo passou a dar prioridade ao turismo internacional, que também traz consigo o fascínio pelo mundo ocidental

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Tozeur é uma cidadezinha da Tunísia, na fronteira da Argélia e ao nordeste do Saara. Irrigada por 200 fontes, é também um dos oásis mais celebres do mundo. Ele abriga uma esplendida plantação de palmeiras de mais de 1000 hectares com 400000 árvores. Um espaço que contem o verde, as dunas e o deserto de pedras. Há gerações as palmeiras alimentam os seres humanos que aí vivem, esses Homo situs1 integrados à biota do território. 2 A produção das hortas (saladas, verduras, cenouras, bananas, tâmaras...) garante o equilíbrio alimentar da população sedentária. A organização agrícola baseada na utilização racional da água permite uma produção importante de víveres.

Desde o século XIV, o plano de irrigação de origem árabe assegura uma repartição da água medida por uma ampulheta hidráulica. Todos têm acesso gratuito à água que percorre todas as parcelas graças a uma engenhosa rede de irrigação. Os conflitos inerentes as irrigações são regulamentados por um tribunal popular soberano que garante o equilíbrio social de uma população auto-suficiente quanto à alimentação. Todos participam dessa organização que oferece ao grupo os meios para sua reprodução. Porém, esse frágil equilíbrio econômico e social seria quase que rompido, no inicio dos anos 90, período no qual o governo dá prioridade ao turismo internacional.

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Ele financia a construção de um aeroporto internacional em Tozeur para desobstruir o litoral super populado do Mediterrâneo. Uma dúzia de Hotéis de primeira classe, aparece para atrair turistas do mundo inteiro que compram seus pacotes-turísticos. Tudo está garantido pela operadora de turismo, desde a festa berbere à noite, com músicos que imitam os típicos grupos do folclore, até o passeio de algumas horas montados em dromedários. Sem nenhum contato com a população local, os visitantes participam desse apartheid turístico próximo de um mundo esquizofrênico onde os poucos contatos feitos são de origem comercial.

Degradação do palmeiral


"Aquele que viaja sem reencontrar o outro não viaja, ele se desloca". Ele leva consigo suas representações do mundo e volta com as mesmas ideias

E isso não permite, em nenhum momento, que os dois mundos se entendam ou partilhem as mesmas preocupações. Isolados na sua relação social com o consumo, os visitantes consomem água sem moderação: as perfurações para a irrigação, os jardins, os gramados e a canalização para a água potável garantem o abastecimento reservado aos turistas. "Aquele que viaja sem reencontrar o outro não viaja, ele se desloca" 3. Ele leva consigo suas representações do mundo e volta com as mesmas ideias reforçadas pela experiência pois ele não soube se enriquecer ao contato da cultura dos povos autóctones.

E assim, levando em conta a fragilidade do regime de chuvas e o aumento geral da média das temperaturas anuais, a situação dos agricultores da plantação de palmeiras caminhou para uma forte degradação. Controlada historicamente de maneira razoável, a água se tornou um bem como os outros. "Aquele que pode pagar consegue o produto". Ao se transformar em mercadoria essa substância abundante se tornou rara. Agora, para a irrigação da plantação de palmeiras se paga 150 euros por hectare durante um ano para molhar uma vez por semana. Com esse preço poucos agricultores puderam sobreviver. Progressivamente, os trabalhadores do oásis deixam o trabalho nos campos para trabalhar nas atividades ligadas ao turismo. Passam rapidamente da lógica do Hommo situs àquela do Hommo economicus, dando as costas a séculos de vida em seu território.

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E isto não deixará de ter consequências sobre as pessoas mais frágeis da comunidade, isto é, os mais jovens. Alguns encontrarão emprego fixo, com um contrato de tempo indeterminado nos hotéis e nas operadoras de turismo da vila. A grande maioria encontrará trabalho mais flexível, com contratos de tempo determinado ou temporários, e serve de reserva de mão-de-obra para as necessidades do turismo. Ora, depois do 11 de setembro de 2001 este setor da economia está em crise. Com uma taxa de desemprego de mais de 40%, toda a região está agora dependendo do exterior.

Fascínio Pelo Mundo Ocidental


A referência passa a ser o modelo ocidental. O turismo de massa gera necessidades que a produção local não pode satisfazer e os jovens cultivam o sonho da imigração

Em primeiro lugar, vejamos aquilo que se refere à alimentação. Os legumes chegam todos os domingos do exterior: eles são cultivados em zona de alta produtividade, onde o equilíbrio ecológico e social está abalado mas com custos de produção inferiores aos da zona da plantação de palmeiras. O cálculo e a filosofia em termos de custos se impuseram à capacidade de auto- organização dos povos da plantação de palmeiras. 4 O economicismo larval desestabilizou o frágil equilíbrio do território.

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Em seguida, vejamos aquilo que se refere às finanças. Face à falta de liquidez, a economia do setor turístico permanece a única fonte de rendas monetárias. Mas essa atividade depende do contexto internacional. É verdade que o mito do deserto, alimentado pela mídia, tem um certo sucesso. Entretanto, mesmo os preços atrativos desses últimos tempos não podem afastar o medo do terrorismo. E finalmente, vejamos aquilo que se refere ao campo da cultura. A referência passa a ser o modelo ocidental. O turismo de massa gera necessidades que a produção local não pode satisfazer. Os jovens cultivam a ilusão de que a imigração possa ser uma saída para a sua frustração5 e para isso estão dispostos a vender a alma para conseguir uma moeda, uns objetos ou até um endereço... Esse tipo de relação marca a recepção, a acolhida tradicional. Ahmed, velho escrivão público da vila é testemunho disso:

"Há alguns anos, os jovens faziam um certo esforço para respeitar a tradição... Mas agora, essa juventude nos deixa desesperados. Eles não querem mais trabalhar na terra de seus ancestrais preferem se perverter em contato com os grupos de turistas. Procuram dinheiro e não amizade: são duas coisas diferentes. O muçulmano deve acolher o estrangeiro e dividir com ele aquilo que de melhor possua. - Vocês não tentaram lhes ensinar, mostrar os valores do povo tunisiano? - Claro que sim, mas eles estão fascinados pelo mundo ocidental....".

Avanço do Deserto


A profanação física e moral é simbolizada pelo avanço do deserto sobre a plantação de palmeiras.Só 25% das terras são cultivadas e numerosas palmeiras morrem

A minoria rica e o capital do turismo do Norte rapidamente se apoderaram desta renda do setor de turismo em detrimento da população local. Pior que isso é o fato do turismo ser visto como a única solução para o possível desenvolvimento da região. O vetor principal dessa pretensa colonização é o mito do desenvolvimento e do Ocidente. "Antes eu trabalhava com meu pai na plantação de palmeiras, declara Bechir, 20 anos, sentado em um banco na espera de turistas. Mas o trabalho era duro. E muitas vezes, apesar do nosso esforço, não conseguíamos levar para casa o dinheiro necessário para a nossa família.Com o turismo, não há mais lugar para a agricultura aqui em Tozeur. O trabalho que faziam nossos ancestrais, nós não estamos mais dispostos a fazer. Preferimos trabalhar com os turistas." - Mas, e se os turistas não aparecerem? "Tudo bem, vamos esperar que eles cheguem... A situação vai acabar melhorando!".

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Esta profanação física e moral é simbolizada pelo avanço do deserto sobre a plantação de palmeiras.Só 25% das terras são cultivadas e numerosas palmeiras morrem por falta de irrigação e cuidados. A plantação serve de receptáculo para garrafas de plástico de água mineral - resíduo material e derrisório da profanação turística. E além disso, depois do ano passado, um canteiro de obras faraônico para instalar em pleno deserto um campo de golfe desfigura os arredores do palmeiral. Como fazer crescer a grama quando faz 50o C à sombra durante a metade do ano? Esta é a aposta feita por essa construção que vai perfurar o lençol freático para manter o gramado plantado em pleno deserto. Pode-se pensar portanto que o pior ainda está por vir....

Venda da Alma e Do Palmeiral


Os projetos de desenvolvimento viram as costas à tradição para impor uma indústria do turismo a serviço dos ocidentais e de uma minoria rica que poderá jogar golfe sob as palmeiras

Eis como uma região, outrora auto- suficiente em termos de alimentação, orgulhosa de sua cultura e de sua identidade entrega a uma minoria a tarefa de organizar seu presente e seu futuro. Os projetos de desenvolvimento viram as costas à tradição para impor uma indústria hoteleira e turista a serviço dos ocidentais e de uma minoria rica que poderão jogar golfe sob as palmeiras... 6 Prazer obsceno e derrisório que é contraditório com o frágil equilíbrio ecológico e social da população local.

Esperando os turistas e apesar dos preceitos fundamentais do Islã, uma parte desta população desestruturada se entrega à bebida alcoólica para esquecer que ela vendeu sua alma e seu palmeiral. Aliás, é no próprio palmeiral que se reúnem para beber, protegidos dos olhares, na frescura da sombra das palmeiras e, talvez também, de maneira simbólica para honrar aquilo que era o orgulho e depois desencanto, 7 dos povos da região.

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(Trad.: Celeste Marcondes)

1 - Como sugere a teoria dos sítios, o Homo situs é um individuo que avalia e se adapta, com os meios do grupo, às situações as quais é confrontado. Ele é um elemento da biota do território, ele não procura de forma alguma domina-ló mas simplesmente aí sobreviver. É também um homem social, pensante e agente. Ler Hassan Zaoual - Territórios e dinâmicas econômicas, da editora L’ Harmattan, Paris, 1998.
2 - O território, no sentido dado por Roger Brunet em seu livro O território nas turbulências, editora Belin, Paris, 1999. "O território (...) é um espaço apropriado (...). Leia-se apropriado nos dois sentidos": próprio para si e próprio para qualquer coisa".
3 - Frase de Alexandra David-Neel, francesa conhecida por ter viajado muito no século XX.
4 - Ler o relatório dos encontros regionais "Autoprodução e desenvolvimento social" que foram realizados em Marseille em 5 de outubro de 2000. E em particular a intervenção de Guy Roustang: "Reconhecer a importância da autoprodução".
5 - Ler Pierre Vermeren, "Os marroquinos sonham com a Europa", Le Monde Diplomatique, de junho de 2002.
6 - Samir Amin fala da burguesia nativa em "Mais além do capitalismo senil", PUF, Paris, 2002. E para explicar essa dominaç

Um abraço e até o próximo post!

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