quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

TURISMO NO ESPAÇO RURAL – 1º PARTE

Luiz Alexandre de Almeida Macedo*

Introdução

Um dos aspectos mais significativos, que marca a atividade turística, é a mudança cultural identificada nos hábitos dos turistas contemporâneos. É importante salientar que esse processo tem-se intensificado com o advento da globalização, que fomenta, em grande medida, o surgimento de novas vertentes no turismo, do qual o turismo no espaço rural faz parte.

Atividades do turismo no espaço rural

O presente artigo pretende examinar em termos teóricos, os usos e definições do turismo no espaço rural, bem como possibilitar uma melhor compreensão do mesmo para o meio acadêmico.

Uso e Definições

Inicialmente, para abordar a temática do turismo rural, torna-se imperativo e crucial definir alguns conceitos, que após serem detalhados, lançará ao estudo um melhor entendimento acerca do tema, bem como subsidiará a interpretação inerente ao mesmo. Os conceitos centrais trabalhados serão aqueles que interligam o fenômeno do turismo, como por exemplo: a globalização, o consumidor turístico, bem como sua relação com o ambiente receptivo, os resultados das relações sociais e naturais intrínseco desse processo, o turismo no meio rural, suas práticas, usos e definições, o impacto na paisagem, e por fim o desenvolvimento sustentável como uma alternativa de geração e distribuição de renda e fixação do homem do campo no campo.

Segundo a Organização Mundial do Turismo:

O turismo compreende as atividades que realizam as pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes ao seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, com finalidade de lazer, negócios ou outras. (OMT, 2001, p. 38)

A EMBRATUR** (2007) por sua vez conceitua o turismo como uma atividade econômica caracterizada pelo conjunto de transações turísticas que envolvem a compra e venda de bens e serviços. O turismo também pode ser definido como sendo o ''complexo de atividades e serviços relacionados aos deslocamentos, transportes, alojamentos, alimentação, circulação de produtos típicos, atividades relacionadas aos movimentos culturais, visitas, lazer e entretenimento''. (ANDRADE, 2002, p. 38).

Viagem palavra chave na definição do Turismo

Porém, qualquer tentativa de definir turismo e descrever completamente sua abrangência deve levar em consideração os diferentes grupos que participam desse setor e que são afetados por ela. São características vitais para elaborar uma definição ampla:

    • Os turistas: que buscam experiências diversas, satisfações psíquicas e físicas, sendo que a natureza dessas demandas irá determinar as destinações escolhidas e as atividades desenvolvidas;
    • As empresas fornecedoras de bens e serviços: os empresários vêem o turismo como uma oportunidade para obter lucros ao fornecer os bens e serviços que o mercado turístico demanda;
    • Os governos das áreas: os políticos vêem o setor de turismo como um fator de geração de riquezas nas economias sob suas jurisdições;
    • As comunidades anfitriãs: a população local geralmente vê o turismo como um fator de geração de emprego e distribuição de renda, além de aspectos culturais. (GOELDNER, RITCHIE e MCINTOSH, 2002, p. 23).

Também, conforme afirmam Goeldner, Ritchie e McIntosh (2002), os componentes do setor de turismo subdividem-se em quatro, cada qual com variantes específicas, que são: Os recursos e o ambiente natural: é a dimensão mais fundamental do modelo, a base do turismo; O ambiente construído: inclui a cultura e tradições locais, a infra-estrutura, a superestrutura turística e, por fim, a tecnologia; Segmentos operacionais do setor turístico: representa o que de fato operacionaliza a atividade turística como os transportes, alimentação, entretenimento, além das agencias de viagens, serviços turísticos e dentre outros; Organizações catalisadoras, de planejamento, desenvolvimento e promoção: dividem-se entre os componentes dos setores privado e público.

A atividade turística se relaciona com diversos setores da economia

Além do mais é importante salientar que a atividade turística é algo que pode transformar os indivíduos, turistas e comunidade local, interferindo de forma positiva ou negativamente em suas vidas dependendo da forma que for viabilizado na localidade. É interessante observar que um dos elementos principais que sustentou o crescimento da atividade turística no globo, se dá pelo advento da globalização, que segundo Vizentini (2004, p. 13), “apoiado na revolução científico-tecnológica afetou profundamente a relação entre as nações”, dinamizando mercados e os tornando internacionais, sendo a competitividade sua força motriz.

Revolução nos meios de comunicação

A globalização é a grande era das mudanças que reflete em todos os aspectos de nossas vidas. Atualmente os indivíduos são movidos por paradigmas momentâneos, vontades e desejos voláteis, que alimentados pelas facilidades de transportes, que hoje estão mais rápidos e seguros, e das comunicações, que motivadas principalmente pela internet, possibilitam uma inesgotável fonte de informações, transformando, portanto, o mundo em uma aldeia global***. Portanto, Castells (1999, p. 149) conceitua o fenômeno da globalização como:

Um processo segundo o qual as atividades decisivas num âmbito de ação determinado (a economia, os meios de comunicação, a tecnologia, a gestão do ambiente e o crime organizado) funcionam como unidade em tempo real no conjunto do planeta. Trata-se de um processo historicamente novo (distinto da internacionalização e da existência de uma economia mundial) porque somente na última década se constituiu um sistema tecnológico (telecomunicações, sistemas de informação interativos e transporte de alta velocidade em âmbito mundial, para pessoas e mercadorias) que torna possível essa globalização.

A pós-modernidade introduziu, na sociedade, uma nova perspectiva acerca do tempo e espaço. Castelli (2001, p. 31) afirma que “a civilização industrial atribui ao tempo um valor singular”, ou seja, tempo é dinheiro, e também diz que “as inúmeras atividades diárias absorveram de tal maneira o homem, hoje em dia, que este já não tem tempo para nada”. Tal processo imprimiu no tempo livre do homem pós-moderno, um elevado valor e conseqüentemente, o transformou em um bem extremamente apreciado e desejado.

O ritmo do dia a dia do homem contemporâneo eleva o grau de stress

O simples desejo de viajar, ou a efetivação da mesma, existente no âmago dos turistas contemporâneos, tornou-se acentuado, em grande parte, devido à caótica configuração espacial atual, que com o advento da globalização, colocou em marcha novos processos de produção e ordenação populacional. Além do mais, a excessiva concentração urbana passa a constituir um sério problema para seus habitantes. Sendo as populações seriamente ameaçadas e afetadas pela poluição sonora, do ar, das águas, além de outras anomalias existentes em nossas grandes urbes (CASTELLI, 2001).

Castelli (2001, p. 32) afirma que “à medida que o homem passa a viver nas cidades densamente povoadas, mais, ele se ressente da necessidade de um tempo livre para pôr seu corpo e sua mente novamente em ordem”, sendo a atividade turística, uma das possibilidades existentes, que figuram como verdadeiras “válvulas de escape”, para essa crescente urbanização e industrialização.

Uso recreativo do tempo livre

É fato que o fenômeno da globalização modificou também a relação dos turistas com a atividade, fazendo emergir o turista contemporâneo. Swarbrooke e Horner (2002) afirmam que os consumidores estão manifestando diferentes padrões de comportamento, onde a busca por novas experiências é a principal característica. O novo turista deseja se afastar dos destinos tradicionais oferecidos pelo mercado e quer, cada vez mais, sentir novas experiências, de menor escala e de contato mais direto e voraz com as realidades locais.

Há evidências que uma abordagem de mercado de massa e padronizado do turismo se tornará cada vez mais desatualizada nos próximos anos. O turista pós-modernista pedirá uma abordagem mais individualizada, com maior variedade e qualidade. (SWARBROOKE e HORNER, 2002, p. 287).

Segmentação de mercado

Porém, a busca por novas sensações e emoções não ocorre por acaso, atualmente os turistas procuram experimentar e viver novas experiências, precisam se deparar com diferentes realidades, conhecer novas formas de vida, novos povos e culturas, “descobrir” um mundo diferente daquele em que é forçado a viver. Bauman (1998) menciona que os turistas iniciam suas viagens por escolha, ou pelo menos assim eles pensam, sendo que em grande parte dos casos os turistas,

partem porque acham o lar maçante ou não suficientemente atrativo, demasiadamente familiar e contendo demasiadamente poucas surpresas, ou porque esperam encontrar em outro lugar uma aventura mais excitante e sensações mais intensas do que a rotina doméstica jamais é capaz de transmitir. (BAUMAN, 1998, p. 116).

Esse panorama elucida o perfil que o turista contemporâneo possui na sociedade, abordando aspectos como a busca, por novas emoções bem como a fuga da realidade, que é presente e acentuada no “lar maçante”. Aponta também a característica volátil que possui esse turista, que movido por “novas oportunidades” se desinteressa completamente pelo destino turístico de outrora. O turista contemporâneo busca o novo e necessita, acima de tudo, de práticas de qualidade oferecidas de forma integral e imparcial. Vale ressaltar também que o novo consumidor do turismo tem dúvidas sobre produtos superficiais, ou voltados para o turismo de massa, como já foi relatado anteriormente.

Turismo Rural proporcionando novas experiências

Com o advento da globalização e a configuração de um novo turista, emerge no contexto mundial, e recentemente no brasileiro, um importante segmento turístico praticado no espaço rural. Barreto (2000) salienta como uma das tendências atuais o retorno do hotel familiar, a pousada e os refúgios em lugares distantes dos grandes centros, onde é valorizada a convivência com os proprietários e participação no dia-a-dia da vida no campo. Esta tentativa atual de valorização no meio natural faz com que os tipos de turismo voltados para a natureza constituam as formas mais promissoras desta atividade, incluindo o turismo em áreas rurais. A vertente do turismo rural possui algumas especificidades que serão descritas e conceituadas em postagens futuras, ocasionando assim um melhor e mais adequado entendimento sobre a temática do presente estudo.

Notas

* Bacharel em Turismo pelo Centro Universitário Newton Paiva / MG (luizmacedo01@yahoo.com.br)

** EMBRATUR – Instituição pública que tem por finalidade cuidar exclusivamente da promoção do Brasil no exterior.

*** Termo criado pelo sociólogo canadense Marshall McLuhan, nos anos 60, que defini “aldeia global” simplesmente como sendo o progresso tecnológico que está reduzindo todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia. (MCLUHAN, 1972).

**** Relatório apresentado à Assembléia Geral da ONU em 1987, sobre o meio ambiente, também conhecido por relatório Brundtland, por ter sido presidido pela Primeira Ministra da Noruega Gro Harlem Brundtland.

Um abraço e até o próximo post!

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

SEGMENTAÇÃO TURÍSTICA – TURISMO LGBT

Apesar de o número de homossexuais brasileiros ultrapassar 16 milhões de pessoas, os investimentos para turistas do segmento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros) só começou a ser explorado há pouco mais de cinco anos. Já nos Estados Unidos, esse nicho de mercado movimenta anualmente 50 bilhões de dólares.

Bandeira arco-íris símbolo do movimento LGBT

Há até uma associação com sede na Flórida reunindo as empresas que atuam no setor. A International Gay and Lesbian Travel Association (www.iglta.org) tem 1200 membros no mundo todo, e opera com gigantes do porte da American Airlines, British Airways, Carlson Wagonlit e Holiday Inn. O Brasil comparece com a rede de hotéis Othon e as agências The Clube e Ipacom, entre outros.

Opções de destinos LGBT

São Paulo e Rio de Janeiro são consideradas as capitais gays da América do Sul por oferecerem, além de opções de lazer, um menor grau de preconceito contra a comunidade LGTB. A capital pernambucana Recife vem se destacando como um dos principais destinos de homossexuais no Brasil.

Praia de Calhetas, Pernambuco / Brasil

Eles se reúnem principalmente na Praia de Calhetas, Boa Viagem e até Porto de Galinhas, a 100 quilômetros da capital. Salvador, Fortaleza e Florianópolis também são encaradas como lugares “gay friendly”, porque possuem uma comunidade gay atuante e uma vida noturna agitada. Paraty, Angra dos Reis e Búzios, no Rio de Janeiro, também já despontam na preferência do público homossexual.

Roteiros LGBT

Numa tendência mundial do turismo, as viagens LGBT também estão subdivididas em roteiros só para homens, só para mulheres e mistos. Os rapazes preferem programas mais urbanos, com boas opções em vida noturna. Costumam viajar em grupo de amigos (ou com outros casais) e querem pacotes com serviço de guia e assistência no destino da viagem.

Chapada Diamantina (vista do morro Pai Inácio) Bahia / Brasil

Já as mulheres apreciam programas ecológicos e gostam de ficar em hotéis mais rústicos, desde que aconchegantes. A Chapada Diamantina é uma das viagens mais procuradas pelo público feminino, enquanto Fortaleza atrai os turistas masculinos.

Hotéis para público LGBT

No Brasil, o único hotel do gênero é o recém inaugurado Absolut Resort, na Praia da Lagoinha, a 50 minutos de Fortaleza, Ceará. Numa área de 8.700 metros há 32 bangalôs, piscina, sauna, academia de ginástica, restaurante, boate e área para shows.


Área de lazer do Absolut Resort

No exterior, esses estabelecimentos são bem comuns. Em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, por exemplo, existem cerca de trinta hotéis direcionados ao mercado LGBT. Há lugares que se especializaram ainda mais e aceitam só gays ou só lésbicas como hóspedes. É o caso do Hotel Timberfell Lodge, no Estado americano do Tennessee, voltado apenas para eles, e do Hotel Queen of Hearts, em Palm Springs, Califórnia, só para elas.

Destinos no Exterior

Entre os lugares que se tornaram moda entre os gays e lésbicas estão a ilha grega de Mykonos e a Ilha de Ibiza, na Espanha. Nos Estados Unidos, Palm Springs, na Califórnia, começou a atrair a comunidade LGTB nos anos 60 e permanece em alta, seguida por cidades como Key West, Miami e Fort Lauderdale, na Flórida; Provincetown (ou Ptown, como também é chamada), em Massachusetts e San Francisco, na Califórnia.

Ilha de Ibiza / Espanha

No México, eles procuram Acapulco e Puerto Vallarta, que tem até trecho da praia predominantemente gay. Sydney, na Austrália, promove dois eventos concorridos, com milhares de visitantes: o Mardi Gras gay e os Gay Games. Outros lugares disputados são Bangcoc, na Tailândia; Copenhague, na Dinamarca, e Porto Rico.

Em uma reportagem recente, o site www.gay.com relacionou os 10 destinos mais românticos para casais LGBT e onde eles não enfrentam discriminação. Nos Estados Unidos, foram votados Havaí, Vermont, Santa Fé e Provincetown. Na Europa: Paris e Praga. Também tiveram boa cotação Montreal, no Canadá; St. Barth, no Caribe; Cidade do Cabo, na África do Sul, e Puerto Vallarta, no México.

Praia da ilha de St. Barth, na região do Caribe

Cruzeiros específicos para turistas LGBT

Foram justamente os roteiros com cruzeiros que impulsionaram o segmento de turismo LGBT. A primeira viagem desse tipo foi feita em 1986, pela empresa Olivia Cruises (www.oliviatravel.com) que fretou um navio só para mulheres, num programa de quatro noites pelas Bahamas.

Foto divulgação da agencia Olivia Travel

Passados dezesseis anos, a operadora já organizou mais de cinquenta excursões pelo mundo e atendeu cerca de 30000 clientes. Nesses passeios, tudo é desenvolvido sob medida; shows, músicos, comediantes, DJs e funcionários são recrutados para atender o público feminino. Por isso, esses cruzeiros são um pouco mais caros do que os convencionais.

Cuidados em países hostis ao turista LGBT

Em países muçulmanos mais radicais, o homossexualismo é considerado crime. Trocar carícias em público no Egito com uma pessoa do mesmo sexo pode dar cadeia. Já em países asiáticos como a China, é comum homens andarem de mãos dadas, sem qualquer conotação sexual.

Pesquisa evita complicações em viagens

Por isso, convém pesquisar os hábitos culturais antes de viajar, usando a internet ou guias de turismo. Se os costumes são rígidos, evitará riscos quem adaptar o comportamento aos padrões locais. As grandes cidades sempre têm publicações gays, muitas delas distribuídas nos hotéis, que relacionam bares e restaurantes voltados à  turma LGTB. Mas fazer contato com os homossexuais locais ainda é a melhor maneirade conseguir dicas.

Direitos e benefícios do turista LGTB

Pela política adotada pelas companhias aéreas American Airlines e U.S. Airways, que fazem vôos domésticos nos Estados Unidos, benefícios como passagens descontadas do plano de milhagem e acesso à  sala vip nos aeroportos podem ser usados pelo parceiro do cliente titular, independentemente do sexo. Ele também tem direito a incorporar as milhas acumuladas, em caso de morte do titular. Na rede Marriott, os pacotes de lua-de-mel também podem ser usados por casais homossexuais.

Praia na Ilhas Virgens Americanas / Região do Caribe

Um dos hotéis do grupo, o Marriot Frenchmanâ´s Reef and Morning Star Beach Resort (www.offshoreresorts.com), nas Ilhas Virgens, no Caribe, realiza celebrações de casamento, por enquanto, um ato simbólico sem valor judicial. Benefícios como esses são mais comuns nos Estados Unidos, onde a comunidade gay é muito maior do que nos outros países e, por estar organizada em associações, tem mais poder de negociação com as empresas.

Saiba mais sobre o assunto nos links abaixo:

Operadoras de cruzeiros 

www.atlantisevents.com

Dicas gerais de turismo LGTB

www.guiagaybrasil.com.br

www.mixbrasil.com.br

Hotéis e Pousadas

www.timberfell.com

www.queenofheartsps.com

www.gayplaces2stay.com

Operadoras de turismo LGTB no Brasil

www.alibi.com.br

Um abraço e até o próximo post!

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

TURISMO SEXUAL - A FACE SOMBRIA DO TURISMO

Rumo ao Turismo Sexual de Massa

Franck Michel*

Enraizado no universo antigo da prostituição, o turismo sexual avança com a pressão por mobilidade e a globalização turística. O mundo caminha para ser um gigantesco parque de diversões?

Mapa do turismo sexual

Na esteira do que ocorreu com o turismo clássico, chegou agora a vez do turismo sexual viver uma “democratização”. Cada vez mais, observa-se a expansão de uma prostituição “à la carte”, uma tendência que, em última instância, nada mais faz do que seguir aquela das viagens “à la carte”... Deixou de ser raro encontrar, em Phuket ou em Ko Samui (para citar o caso da Tailândia), um viajante aventureiro ocidental acompanhado, na garupa da sua moto ou agarrada ao seu braço, por uma girlfriend, nome oficial e aceitável para a prostituta – que ele alugou para a semana ou o mês.

O turismo sexual conhece um efeito “bola de neve”, que não o deixa imune a uma massificação. Na Tailândia, os novos clientes são cada vez mais jovens ocidentais em busca de aventuras e sensações fortes. Eles substituem aos poucos os velhos turistas alemães, japoneses ou norte-americanos – que, por sua vez, já haviam sucedido os militares lá estacionados durante a guerra do Vietnã. Além do mais, uma nova clientela andou surgindo nas praias e nos bares: malásios, chineses, sul-coreanos.

Turismo sexual nas praias brasileiras

A prostituição “turística” atinge muitos países do Sul: neles, as garotas (ou os rapazes) são jovens, pobres e pouco educados e, portanto, facilmente exploráveis. Elas aderem de maneira mais ou menos forçada à prostituição, uma “profissão” que não têm, contudo, nenhuma vontade de exercer. À procura de sexo fácil e barato, os turistas sexuais estrangeiros afluem, atraídos por essa carne fresca, disponível e submissa. Uma boa parte dentre eles, para se dar boa consciência, encontra todas as razões do mundo para se convencer de que não está abusando do desamparo desses jovens. Não estariam fazendo nada senão ajudá-los, sustentá-los, e até mesmo contribuir para o desenvolvimento do seu país.

Turista em uma boite brasileira

Nesses Estados, depois da expansão do turismo de massa, o setor informal da prostituição desenvolveu-se com o afluxo mais importante de turistas individuais. Tornou-se possível estabelecer uma espécie de cartografia do turismo sexual: as mulheres vão a Goa, à Índia, à Jamaica, a Gâmbia, enquanto os homens preferem os países do sudeste asiático, o Marrocos, a Tunísia, Senegal, a República Dominicana, Cuba, Panamá, o Suriname, o México – sem esquecer o Brasil onde teriam sido recenseadas não menos de 500 mil crianças que praticam a prostituição.

Uma Perda de Rumo Inevitável?

Com isso, o turismo sexual de massa se desenvolve no universo das mobilidades turísticas. Para muitos ocidentais, ele representa uma forma de colonização nova e adaptada à nossa época. Alguns gostariam de estabelecer a todo custo uma distinção entre a prostituição forçada e a prostituição voluntária ou “livre”. O pretexto é que, em certas cidades do Norte – ou nos enclaves ricos dos países pobres – a prostituição de luxo, poderia permitir que certas garotas (que teriam escapado das pressões dos gigolôs) “disponham livremente do seu corpo”. Em contrapartida, admite-se que, na maioria dos países do Sul – assim como em enclaves de miséria nas cidades do Norte ou do Leste –, a prostituição é sempre uma atividade exercida sob efeito de coação (proxenetismo, violências, estupros). Mas como combater a prostituição nos países pobres do Sul, quando se alega que, nos países ricos do Norte, ela resultaria de opções individuais?

Outros insistem para que não se confunda prostituição infantil com prostituição adulta. De tanto lançar mão desta diferença, ela torna-se suspeita. E quanto mais se estabelece um consenso para condenar o abuso sexual em crianças, tanto mais facilmente o abuso em adultos (mulheres e homens) parece ser admitido como uma perda de rumo supostamente inevitável do mundo no qual nós vivemos. A prostituição infantil horroriza todo mundo, enquanto cada um, finalmente, acaba acomodando-se com a prostituição “clássica”.

Campanha contra a prostituição infantil da Anistia Internacional

Num ambiente como este, o turismo sexual acaba, de certa forma, livrando-se de toda responsabilidade, de toda culpa. Ainda mais porque se apóia fortemente nas indústrias “clássicas” do sexo: pornografia e prostituição. Uma prostituição que não passa da tradução prática daquilo que a pornografia propõe. Num contexto em que os dois universos se juntam para transformar os seres humanos em instrumentos, em ferramentas, e industrializar os corpos. Além de tudo, a máquina da mídia e da propaganda encarrega-se de preparar o terreno para reforçar o reconhecimento oficial da indústria do sexo. A violência sexual é celebrada ao ser exibida em toda parte pelos meios de comunicação, inclusive para ser denunciada. Trata-se de um paradoxo e de uma confusão que são reflexos exatos da nossa cultura do pornô chique e “soft”, que celebra a dominação do macho na hora em que a sua virilidade parece ser menos assumida.

Industrialização dos corpos

Indústria Alimentada Pela Pobreza

A demanda sexual é incentivada e estimulada por uma oferta cada vez mais atraente. O mercado amplia-se e vai se diversificando: uma internacionalização da oferta, com garotas cada vez mais novas, provenientes dos quatro cantos do globo, vem atraindo novos clientes. Com este afluxo de migrantes do sexo, alimentado pela sede de consumo, a rotação das garotas está garantida. Objetos de todo tipo de tráficos, os corpos são disponíveis e prestativos. Por tarifas cada vez mais baixas, conforme manda a concorrência.

Rota do trafico de pessoas

Já o sucesso crescente do turismo sexual feminino mostra que, em relação a esses pontos, a mulher vem adotando um comportamento similar ao do homem, repetindo as mesmas representações sobre o poder, a dominação e a exploração. A este respeito, parece apropriado aproximar – no plano essencialmente simbólico – de um lado, o “turista organizado”, que entregou a organização da sua viagem a uma agência ou um “tour operator” e, de outro, o “turista sexual”.

Não raro o turista organizado exime-se de toda responsabilidade no exato momento em que pisa o solo do seu destino exótico. Foi o que deu a entender um viajante que, recém-desembarcado no aeroporto de Hanói no Vietnã, explicou o seguinte: “Pronto, eu acabo de aterrissar. Daqui para frente, estou entregando meu destino dessas próximas semanas nas mãos do meu guia. Eu estou cansado demais por causa do meu trabalho. Durante essas férias, não quero mais pensar, mas apenas me deixar levar!”. É verdade que não havia nessas explicações nenhuma segunda-intenção sexual, mas outros turistas perceberão facilmente a ligação, e então darão o passo.

Antigo folder turístico da cidade de Fortaleza

De fato, do outro lado do mundo tudo volta a ser possível – principalmente desafiar uma série de proibições. Outro exemplo: por mais que um turista perdido no meio do seu grupo possa eventualmente entregar seu destino ao guia ou à agência de viagens, ele se autorizará, ao mesmo tempo, práticas que costuma proibir a si mesmo em seu país. Por exemplo, banhar-se nu numa praia na Malásia, ao lado de pescadores muçulmanos melindrados, ou namorar uma menina novinha que sentou à sua mesa para lhe vender cigarros ou bugigangas num restaurante no Vietnã.

A Sensação de Fim da Responsabilidade

É quase sempre desta forma que o turista ordinário, longe da sua casa, começa a praticar atos que seriam totalmente impensáveis em suas próprias terras. Esta aspiração à transformação de si é tanto mais fácil para os turistas – organizados ou não – quanto mais tiver se instalado em sua mente a perda de responsabilidade que ocorre durante a viagem. Para o turista organizado, o Outro – o “indígena”, diziam no tempo das colônias – é o servidor turístico, cujo papel consiste em ser explorado.

O turista sexual livra-se com freqüência de toda responsabilidade humana, uma vez que, por meio de uma transação financeira, sente-se liberado da necessidade de se preocupar com o Outro. Ele não se sente mais nem na obrigação de respeitar sua (ou seu) parceiro efêmero, nem de lhe proporcionar prazer. Ao pagar por um serviço – no caso, sexual – ele está comprando a liberdade de uma pessoa sobre a qual, por um tempo determinado, tem todos os direitos. Inclusive o de reduzir esta pessoa ao estado de “bem”, de mercadoria.

O individuo é transformado em um bem de consumo

Ele não precisa poupar sua presa, forçada à submissão, da qual pode dispor como bem entende, sem ter medo de ser expulso ou castigado por uma autoridade. O cliente é rei. Em férias, muito particularmente. O cliente-turista é o único a mandar a bordo, uma vez que o Outro foi relegado à condição de escravo sexual, pouco importando, aliás, que ela (ele) seja bem ou mal tratada pelo seu mestre de plantão.

É patente, as diferenças entre o turista organizado e o turista sexual são grandes, mas a passagem de um para o outro por vezes vem a ser surpreendentemente fácil. “Em geral”, explica Paola Monzini, “o sexo pago tornou-se uma componente mais ou menos visível do turismo de massa”. Contudo, a maioria dos turistas sexuais opera de modo solitário. Essencialmente por duas razões: o medo de chamar a atenção e ser denunciado, e o egocentrismo evidente do abusador.

 

Turista sexual, viajante anônimo

Pode um turista organizado transformar-se num turista sexual? Sim, caso ele se acomode com muito facilidade à tendência atual de ficar ligado na onda do momento – que celebra o culto do corpo e o do rejuvenescimento, tendo como pano de fundo a apetência sexual e o mal-estar da civilização. Encontramos, por exemplo, o arquétipo desse veranista chinfrim no personagem central do romance “Plataforma”, de Michel Houellebecq, no qual o mergulho no sexo e na viagem permite ao turista vulgar ter a impressão de ser alguém diferente daquele empregado submisso e homem sem qualidades que ele é na sua morna vida cotidiana. No Ocidente, o turismo sexual continua sendo representado de duas maneiras muito simplistas e incompletas demais: de um lado a miserabilidade, e de outro o angelismo.

No Sul, Miséria Econômica; no Norte, Afetiva

Cinco causas principais estão na origem da expansão sem precedente do turismo sexual de massa: a pauperização crescente; a liberalização dos mercados sexuais, que incentiva mais ou menos diretamente o tráfico de mulheres para fins de prostituição; a persistência de sociedades patriarcais e sexistas; a deterioração da imagem da mulher, tendo como pano de fundo a violência sexual generalizada e banalizada; e a explosão do turismo internacional e dos fluxos de migrantes de todo tipo.

Ausência de direitos das mulheres

Esta expansão foi estimulada por duas características das nossas sociedades: em primeiro lugar, a "democratização" dos fluxos de viajantes (massas de turistas que circulam por todo lado); em segundo lugar, a hiper-sexualidade dos jovens, cultivada por meios de comunicação obcecados pela violência sexual. Ela também se alimenta do encontro entre a miséria e a beleza do mundo. Miséria e beleza atestam o corte que rege a ordem desigual do planeta. Uma miséria afetiva no Norte, uma miséria econômica no Sul e no Leste; “beleza” dos bens materiais de consumo no Norte, beleza das paisagens e das pessoas, assim como da espiritualidade, do modo de vida e das “tradições” no Sul e no Leste.

Em decorrência da publicação da Declaração da Organização Mundial do Turismo (OMT) sobre a prevenção do turismo sexual organizado, adotada no Cairo em outubro de 1995, que sensibilizou os atores do turismo e o conjunto dos clientes-viajantes para este flagelo global (que não diz respeito apenas às crianças), a luta contra “o turismo sexual de massa” começou a melhor se organizar.

Campanha nacional contra o turismo sexual de crianças e adolescentes

*Franck Michel é Antropólogo, docente da Universidade da Córsega, e animador da associação Déroutes & Détours (www.deroutes.com). Autor de “Désirs d’Ailleurs” (“Desejos de outros lugares”), editora PUL, Québec, 2004, e de “Planète Sexe”, editora Homnisphères, Paris, 2006, entre outras publicações.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CIRCUITO TURÍSTICO DO OURO

Não há como negar, o Circuito do Ouro é, sem dúvida, sinônimo de história. O século XVIII, período correspondente à mineração do ouro, foi de grande importância para Minas Gerais. Do ponto de vista histórico, cultural e artístico, este período foi marcante para a consolidação de uma cultura eminentemente mineira. E é o momento, também, em que se começa configurar a formação sóciopolítica do Estado.

Mapa: Circuito do Ouro

Dono de um fabuloso acervo histórico e artístico, o Circuito do Ouro possui dois patrimônios da humanidade: Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. Mas, ao todo, são dezenove os municípios que constituem esse Circuito: Barão de Cocais, Bom Jesus do Amparo, Caeté, Catas Altas, Congonhas, Itabira, Itabirito, Mariana, Nova Era, Nova Lima, Ouro Branco, Ouro Preto, Piranga, Raposos, Rio Acima, Sabará, Santa Bárbara, São Gonçalo do Rio Abaixo.

Vista panoramica da cidade de Ouro Preto

A história da região começa com o descobrimento do ouro no final do século XVII, o que deu origem a muitos povoados. Alguns se desenvolveram e foram elevados a vilas, que hoje são as nossas conhecidas cidades históricas. Nessas vilas, foram construídos imponentes sobrados, casas de câmaras e cadeias, chafarizes, singelas capelas e magníficas igrejas, onde pode florescer o talento de artistas como Antônio Francisco Lisboa - o Aleijadinho, Manuel da Costa Athaíde, Francisco Viera Servas, Francisco Xavier de Brito, Francisco Lima Cerqueira e José Gervásio de Souza.

Os 12 profetas, obras de Aleijadinho instaladas em Congonhas do Campo. Pela ordem, da esquerda para a direita, começando no alto: Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Abdias, Amós, Jonas, Habacuc e Naun.

Três movimentos retratam a importância histórica do período da mineração e dessa região hoje denominada Circuito do Ouro: a Guerra dos Emboabas - luta de paulistas e "forasteiros" pelo domínio comercial da região; a Sedição de Vila Rica - revolta dos mineradores contra as extorsivas medidas administrativas portuguesas; e a Inconfidência Mineira, que teve a audácia de desejar a liberdade política e econômica da Capitania de Minas Gerais.

Tiradentes, martir da inconfidencia mineira, esquartejado. Obra de Pedro Américo 1893.

Geograficamente, o Circuito do Ouro está situado na área denominada Quadrilátero Ferrífero, onde se encontram riquíssimas jazidas minerais. Hoje, uma importante parcela da economia do Estado ali está devido à atividade extrativista, às grandes usinas siderúrgicas, além de três importantes minas de ouro. Dentre as atuais riquezas minerais, está o topázio imperial.

Topázio Imperial em processo de lapidação

Assim, em decorrência da história da mineração do ouro, os diversos municípios deste circuito guardam verdadeiras relíquias culturais. São museus, igrejas, centros culturais, sítios arqueológicos, fazendas, santuários, casarões, memoriais, trechos da Estrada Real e ricas manifestações da cultura popular.

Os museus encontrados neste circuito estão entre os principais do estado e guardam objetos notáveis e documentos de grande valor. Entre eles, destacam-se: Museu da Inconfidência, Museu do Oratório e Museu de Arte Sacra, em Ouro Preto; Museu do Ouro, em Sabará; Museu do Escravo, em Belo Vale; e Museu de Arte Sacra, em Mariana.

Panteão dos Inconfidentes no interior do Museu da Inconfidencia

Outros espetaculares monumentos atestam a riqueza histórica e artística dos municípios que integram este circuito. A igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, com obras-primas do Mestre Antônio Francisco Lisboa e do Mestre Athaíde simboliza toda a criatividade e qualidade da arte colonial mineira. Em Sabará, está outra jóia da decoração barroca mineira: a excepcional capela de Nossa Senhora do Ó. A Catedral da Sé, em Marina, também possui uma das mais preciosas peças de Minas Gerais: um órgão Arp Schnitger, construído em 1701. E a última grande obra do período da mineração do ouro encontra-se em Congonhas: o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, com os magníficos passos da paixão e o esplendor das esculturas dos profetas, executados por Aleijadinho.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição – Catas Altas

Este circuito também abriga um rico patrimônio natural. Cachoeiras, matas e inspiradoras paisagens serranas complementam e emolduram a beleza dessa região. São destaques: o Parque Estadual do Itacolomi e o Parque Natural do Caraça. Este último, além de ser uma preciosa reserva pertencente ao Santuário do Caraça, é também um dos maiores bens culturais do Estado.

Tanta beleza para ver... e muita história para contar. Assim é o Circuito do Ouro.

Um abraço e até o próximo post!

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A GASTRONOMIA E O TURISMO – BREVE HISTÓRICO

Gastronomia e Seu Desenvolvimento

Desde tempos imemoriais a alimentação ocupa um lugar de suma importância nas relações entre os povos. Guerras foram travadas pela posse de campos de trigo. A ameaça ou realidade da fome derrubou governos e provocou revoluções, em suma: o homem lutou e matou pela própria sobrevivência desde o tempo das cavernas.

Com o desenvolvimento e a riqueza das nações, novos alimentos são incorporados ao dia-a-dia das populações, e, com o progresso, deixa-se de lado o conceito de alimentação apenas como a necessidade de sobrevivência, entregando-se paulatinamente à busca de um certo hedonismo na arte de comer.

 Diversos ingredientes são incorporados aos hábitos alimentares

Essa mudança coincide com o florescer da Renascença, após a Idade Média, quando exoticidades e produções culinárias do apogeu do império romano foram banidas das mesas da nova ordem (bárbara e rústica), até o ponto de um retrocesso cultural.

Na renascença, com o casamento de Catarina de Médicis com o delfim de França, inicia-se uma fase de ouro para a gastronomia moderna; ocorre a fusão entre a cozinha italiana e a cozinha medieval francesa. Nessa época, a cozinha francesa caracterizava-se por pouco ou nenhum refinamento. Sua base eram alimentos gordurosos e sopas; verduras não compunham o cardápio. Já a cozinha toscana, trazida por Catarina e seus chefes e pasteleiros, atingira certo grau de elaboração, com a composição de ingredientes mais diversificados, harmonizando sabores até em tão desconhecidos. Daí se originou a famosa cozinha francesa moderna, que, ao longo dos séculos, tem regido tendências, descobertas, invenções e é identificada como um dos maiores veículos de divulgação dos valores franceses.

Prato da gastronomia francesa

No Brasil, ainda hoje, muitas pessoas confundem gastronomia, área do conhecimento, com culinária. As artes culinárias sempre foram identificadas como a formação gastronômica. Nada contra a arte culinária – que entendemos como o conjunto de conhecimentos adquiridos empiricamente ou num contexto associado principalmente ao lar e/ou as pessoas comprometidas com o bem comer.

Até meados dos anos 1960 reinavam absolutos os centros culinários formados nessa ótica, os quais desenvolviam suas atividades no foco da dona de casa preocupada em habilitar-se, visando a complementação da renda familiar ou o aprimoramento de seus “pendores” domésticos.

Nessa fase, talvez por herança histórica, os profissionais que se dedicavam às atividades da cozinha eram tidos como profissionais operacionais, quando não braçais. Isso não quer dizer que todos os profissionais careciam de formação ou instrução, porém, que a própria atividade era associada àquelas desenvolvidas em tantas residências por empregadas extremamente habilidosas em reproduzir ou assimilar hábitos alimentares agradáveis aos patrões.

Mulher em seus afazeres domésticos

O mercado formal de alimentação (restaurantes, hotéis, hospitais, etc.) não exigia do cozinheiro aprendiz formação prévia. Os chefes normalmente recebiam seu aprendizado ao longo dos anos, atuando nas cozinhas como ajudantes e cozinheiros, até atingir seu primeiro cargo colmo chefe, quando seu preparo – em geral empírico – o capacitava para um posto de comando. Dele não se esperava que acumulasse informações de cunho cultural, científico ou sociológico, ou suas implicações nas produções culinárias. Dele esperava-se antes de tudo que tivesse “mão” – aquele dom de preparar o alimento e satisfazer os clientes com suas habilidades. Era a época do cozinheiro com a “barriga no fogão”, com domínio de receitas, sem aprofundar-se nas suas origens, custos, administração de compras, etc.

A gastronomia era conceituada como mesa farta e repleta de sabores caros e refinados. Receitas francesas e russas, entre outras, atingiram o apogeu como iguarias, mesmo quando adaptadas a ingredientes mais fáceis de encontrar ou liberalidades no seu preparo como forma de enriquecê-las para seu cliente – foi a glamourização de certos pratos como o estrogonofe ou o steak Diana, para citarmos alguns.

Tradicional Steak Diana

A partir dos anos 1970, o brasileiro passou a falar outra linguagem no que se referia a alimentação. Chefes europeus começaram a nos visitar mais amiúde, e muitos passaram a residir no Brasil, trazendo consigo conceitos, técnicas e modos de atuação pouco divulgados ou não muito claros entre nós. Esse movimento acentuou-se em parte com a chegada das grandes redes hoteleiras no Brasil.

Esses chefes tinham em comum algo que não havia em nossa realidade – a formação profissional. Surgiu, então, a busca para entender o que era gastronomia. Ora, dentro dessa nova ótica, a gastronomia passou a ser reconhecida como a atividade culinária desenvolvida dentro de princípios “científicos” ou por técnicas alicerçadas em anos de descobertas e experiências que visavam equilibrar sabores e ingredientes – com finalidades não só de cunho estético, mas também de harmonização dos diversos elementos que compõem as necessidades nutricionais de um indivíduo.

Profissional contemporâneo: teoria e pratica

Nesse novo conceito, as formas de trabalho até então praticadas apresentavam deficiências consideráveis. Para o novo profissional e para os já estabelecidos, fizeram-se necessários conhecimentos mais direcionados, ou melhor, mais aprofundados sobre as diversas etapas do processo produtivo. Dentro das cozinhas passou a destacar-se a figura do cozinheiro com formação específica. Nos anos 1990 e 2000 essa tendência se acentua com a criação de cursos superiores de gastronomia e de vários cursos de formação profissional.

Um abraço e até o próximo post!

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O QUE SÃO CIRCUITOS TURÍSTICOS?

Circuito Turístico compreende um conjunto de municípios com relativa proximidade em determinada área geográfica, caracterizado pela predominância de certos elementos da cultura, da história e da natureza, com possibilidades de atrair e seduzir turistas.

As semelhanças culturais delimitam o tamanho de um Circuito Turístico

A formação de um circuito pressupõe a identidade e o associativismo entre esses municípios que, na verdade, se consorciam para somar os atrativos, equipamentos e serviços turísticos, com o objetivo de enriquecer a oferta turística, ampliar as opções de visita e a satisfação do turista, com conseqüente aumento do fluxo e da permanência dos visitantes naquela área geográfica, geração de trabalho, renda e qualidade de vida.

Para que ocorra a necessária integração regional entre os municípios de um mesmo circuito, vias de acesso compatíveis são imprescindíveis à complementaridade entre os atrativos, meios de transporte, equipamentos e serviços, e ao fortalecimento da cadeia produtiva do setor turístico.

É também indispensável a existência, no conjunto de municípios que integram um Circuito Turístico, de pelo menos uma cidade com infra-estrutura necessária para acolher os turistas, e estes, a partir dela, poderem se deslocar para outros pontos de visitação do circuito.

Mapa do Circuito Turístico do Ouro – situado em MG

O tipo de organização social que representa um Circuito Turístico é a associação que congrega os municípios a ele pertencentes. O Circuito Turístico é, portanto, uma associação juridicamente constituída, formada por pelo menos um representante de cada município participante. Essa associação tem direção própria e é coordenada por um gestor. Além disso, é focada na implementação de atividades que objetivam o desenvolvimento turístico dos municípios que a integram e amparada por empresas públicas e privadas que se dedicam ao turismo.

Futuramente irei postar informações sobre alguns dos Circuitos Turísticos existentes no Brasil e no mundo.

Um abraço e até o próximo post!

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ORIGEM DAS AGENCIAS DE VIAGENS

Definição

Agência de viagens é uma empresa privada que trabalha como intermediária entre seus clientes e determinados prestadores de serviços turísticos, como empresas áreas, hotéis, cruzeiros e dentre outros. Com o objetivo de vender produtos e serviços relacionados com essas viagens, a um preço e com determinadas condições especialmente atrativas em relação as que se poderia conseguir ao dirigir-se diretamente a esses provedores.

A companhia britânica Cox & Kings, criada em 1758, é a agência de viagem más antiga do mundo e Thomas Cook um de seus mais notáveis pioneiros, por seu planejamento desde 1841 de excursões religiosas em grupo. Em qualquer caso, as agências de viagem se desenvolveram, sobretudo, a partir dos anos 20, com o desenvolvimento da aviação comercial.

 

Gravura de uma excursão idealizada por Thomas Cook

Portanto a origem das Agências de Viagens e Turismo se relaciona às antigas civilizações e a sua evolução é retratada por fatos turísticos narrados no século XIX, século XX e século XXI.

Século XIX – Contribuições de um pioneiro

Thomas Cook (primeiro agente de viagens) fretou  em 1841 um trem para os participantes de um congresso antialcoólico entre as cidades de Liecester e Loughborough na Inglaterra. Em 1841 fundou a Thomas Cook and Son, a primeira agência registrada no mundo, já em 1851 conduziu cerca de 165 mil pessoas à Exposição de Hyde Park (Londres). Em 1865 vendeu a 35 turistas uma programação completa de viagem aos Estados Unidos. No ano de 1872 levou seus clientes em uma volta ao mundo numa viagem de 222 dias e inaugurou a primeira agência de viagens fora da Europa.

Folder turístico da agencia Thomas Cook & Son

Thomas Cook criou ainda o voucher e a circular note, antecessora do traveller check.

Nesse século surge o registro profissional do agente de viagens, e também as primeiras agências de viagens brasileiras, que foram registradas oficialmente como prestadoras de serviços específicos no final do século XIX.

Século XX – Agência e suas fases

1ª fase: As agências antigas se dedicavam aos tours individuais de clientela burguesa, formada por profissionais liberais e executivos de alto poder aquisitivo.

2ª fase: As agências da década de 30 eram especializadas em tours de grupos em automóveis e ônibus para atendimento das classes burguesas e da classe média, que surgia na época.

3ª fase: As agências criadas a partir de 1950 eram caracterizadas pela execução preferencial de visitas organizadas e de tours para clientela de médio poder aquisitivo.

Segmentação do mercado. Para cada individuo, uma local diferente

É nessa época que as agências pioneiras fundam as primeiras entidades associativas do setor, como: sindicatos e associações nacionais de agências e operadoras.

4ª fase: As agências para a clientela mais jovem eram dedicadas a vendas e execução de pacotes em receptivos de veraneio de padrão médio e a preços acessíveis para cativar as pessoas e construir um fluxo de demanda constante ou regular.

A partir da década de 70 até o início do século XXI, são trinta anos de influências da economia de mercado mundial.

No final do século – em 1998 nos Estados Unidos e em 1999 inclusive no Brasil, as agências de viagens e turismo começaram a sofrer uma redução significativa nos percentuais de comissão acordados com as transportadoras aéreas.

Século XXI – A Era da Informação

O impacto do surgimento da Internet como uma ferramenta operacional e comercial associado à eventual desregulamentação do transporte aéreo e demais fatores marcantes do final do século XX são desafios que o setor de viagens vem enfrentando.

No mercado globalizado, observam-se muitos fenômenos influenciadores na dinâmica da atividade de agenciamento. Em nível mundial ou regional, os fatos que afetam diretamente o agenciamento correspondem ao desempenho dos sistemas de turismo, os cenários socioeconômicos, as mudanças tecnológicas, as regulamentações governamentais, a disponibilidade de mão-de-obra e outros.

O mundo se transforma eu uma aldeia global

No âmbito teórico e prático é importante sublinhar que o conjunto de variáveis que atualmente pressionam os profissionais ligados ao ramo dos agentes de viagem desencadeia reflexões para o sucesso desse negócio, que está além da comercialização de produtos em nível de satisfação ao cliente, destacando-se a qualidade, atendimento e estratégias de serviços diferenciadas, que promovam interação entre o cliente e a agência.

Internet e Suas Possibilidades

Com o acesso a internet, muitas empresas aéreas e muitas operadoras de viagens começaram a vender diretamente aos passageiros seus pacotes turísticos e suas passagens. Como conseqüência, estas empresas deixaram de depender de agenciamentos e da necessidade de pagar comissões aos agentes de viagens por cada produto vendido. Desde 1997, as agências de viagens gradualmente se converteram em vítimas da desintermedialização, reduzindo a necessidade e importância de se contatar uma Agência de viagens antes de se decidir por um destino.

Com a internet o cliente adquire o pacote sem sair de casa

Muitas agências de viagens têm investido em manter uma presença na Internet publicando um site na web, com informação detalhada de viagens. Estas empresas utilizam companhias de distribuição de serviços de viagens que operam Sistemas de Distribuição Global (GDS) como Sabre Holdings, Amadeus, Worldspan e o Galileo para prover on-line, informações detalhadas de vôos, hotéis e alugueis de automóveis.

Alguns dos sites de viagens permitem aos visitantes comparar as cotações das múltiplas companhias hoteleiras e de vôos de maneira gratuita. No mínimo permitem através de seus sites obterem informações sobre o destino e idealizar todo o seu roteiro juntamente com diversos serviços.

Classificação das Agências de Turismo

Classificam-se em duas categorias:

  1. Agência de Viagens e Turismo;

  2. Agência de Viagens.

Constitui atividade privativa das Agências de Turismo a prestação de serviços consistentes em:

  • Venda comissionada ou intermediação remunerada de passagens individuais ou coletivas, passeios, viagens e excursões;

  • Intermediação remunerada na reserva de acomodações;

  • Recepção transferência e assistência especializada ao turista ou viajante,

  • Operação de viagens e excursões, individuais ou coletivas, compreendendo a organização, contratação e execução de programas, roteiros e itinerários;

  • Representação de empresas transportadoras, empresas de hospedagem outras prestadoras de serviços turísticos;

  • Divulgação pelos meios adequados, inclusive propaganda e publicidade, dos serviços mencionados acima.

As Agências de Turismo poderão prestar, ainda, sem caráter privativo os seguintes serviços:

  • Obtenção e legalização de documentos para viajantes;

  • Reserva e venda, mediante comissionamento, de ingressos para espetáculos públicos, artísticos, esportivos, culturais e outros;

  • Transporte turístico de superfície;

  • Desembaraço de bagagens, nas viagens e excursões de seus clientes;

  • Agenciamento de carga;

  • Prestação de serviços para congressos, convenções, feiras e eventos similares;

  • Operações de cambio manual, observadas as instruções baixadas a esse respeito pelo Banco Central do Brasil;

  • Outros serviços, que venham a ser especificados pela EMBRATUR.

É privativa das Agências de Viagens e Turismo a prestação dos serviços quando relativos a excursões do Brasil para o exterior.

Tipos de agências de viagem

  1. Agência emissiva - Atua com o mercado de turismo emissivo, emite passagens para várias partes do território nacional ou internacional. Eventualmente, pode atuar como receptiva.

  2. Agência receptiva - Trabalha com o mercado interno e ou externo, dependendo da região. Recepciona turistas que vêm de várias partes do território nacional ou internacional.

  3. Consolidadoras - Fornecem às agências, tanto pequenas como médias, os preços e vôos de diversas companhias aéreas credenciadas.

  4. Agências de viagens e turismo escola - Geralmente localizadas em faculdades ou universidades com o objetivo de treinar alunos e estagiários que aceitam trabalhar com turismo nesta categoria.

Órgãos oficiais e entidades de classe de turismo aos quais uma agência está ligada

ABAV – Associação Brasileira das Agências de Viagens.

www.abav.com.br

ABIH – Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

www.abih.com.br

ABRAJET – Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo.

www.abrajet.com.br

ABGTUR – Associação Brasileira dos Guias de Turismo.

www.abgtur.tur.br

ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil

www.anac.gov.br

BRAZTOA – Associação Brasileira das Operadoras de Turismo.

www.braztoa.com.br

EMBRATUR – Instituto Brasileiro de Turismo.

www.embratur.gov.br

IATA – Associação Internacional de Transportes Aéreos.

https://www.iata.org.br

INFRAERO – Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária.

www.infraero.gov.br

MINISTÉRIO DO TURISMO

www.turismo.gov.br

SINDETUR – Sindicato Nacional das Empresas de Turismo.

www.sindetur.com.br

SNEA – Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias.

www.snea.com.br

Um Abraço e até o próximo post!

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

HISTÓRIA DO TURISMO – IDADE CONTEMPORÂNEA (PARTE FINAL)

Idade Contemporânea

Período que tem inicio a partir da Revolução Francesa (1789) até a atual história do mundo ocidental. Durante a Idade Contemporânea é que ocorrem os grandes avanços tecnológicos, além do fenômeno da globalização, que impulsionaram e colocaram definitivamente o turismo em um lugar de destaque dentro da economia global.

Fenômeno da globalização: Revolução nos meios de se comunicar e locomover

O principal fator que contribuiu com esse avanço foi a Revolução Industrial, que ao se consolidar coloca a burguesia em uma situação favorável, passando essa a dispor de recursos econômicos e tempo livre para viajar. O invento do maquinário a vapor promove uma revolução nos transportes, que possibilita substituir a tração animal pelo trem a vapor, tendo as linhas férreas que percorrem com rapidez as grandes distâncias. Também o uso do vapor nas navegações reduz o tempo dos deslocamentos.

Locomotiva a vapor: Usada como trem turístico na Áustria

Na Inglaterra surgem os primeiros empreendimentos que passam a oferecer passagens de travessias transoceânicas e passam a dominar o mercado marítimo na segunda metade do século XIX, o que favorece as correntes migratórias européias para as Américas. Sendo este o grande momento dos transportes marítimos e das companhias navais.

MS Freedom of the Seas: um dos maiores navio de cruzeiro do mundo

Começa a surgir, também na Europa, o turismo de montanha ou saúde, famosos sanatórios e clínicas privadas européias, muitos delas ainda existem como pequenos hotéis, guardando ainda um certo charme. Também nessa época é muito praticado o turismo de balneário ao longo de toda a costa do mediterrâneo.

Vários outros elementos interagiram e ainda modificam os paradigmas do turismo, portanto em postagens posteriores irei abordar novos elementos desse período, que é de vital importância para o estudo e conhecimento do Turismo como ciência.

Um abraço e até o próximo post!

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